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domingo, 8 de abril de 2012

Non tenhas pena de min.Paulo Costa

NÃO TENHAS PENA DE MIM
"Meu querido boi, porque me olhas com pena!? Não tenhas pena de mim, por favor.
Sei que a minha vida não foi fácil, sei que foram todos lá para a cidade e nos abandonaram à nossa sorte, mas acredita que, lá longe, não serão mais felizes do que nós...
Não tenhas pena de mim, por favor.
Sei que não tenho reforma, pois não sei ler, nunca descontei e quase nem conto para as estatísticas, mas nós sabemos bem o que contribui para a vitalidade deste país, cultivando os nossos campos desde os meus cinco anos, tratando dos animais que alimentam lá as grandes cidades, nunca poluindo a natureza, que agora dizem que está a aquecer o globo e que isso é muito grave... aqui respiramos ar puro, ainda, mas dizem que lá para as cidades os carros são aos milhões, que ninguém anda a pé, que cada família tem dez televisões, três carros, vinte telefones (daqueles que não têm fios...) e que existem pessoas que comem comida esmagada que fazem em dois minutos e que vem dos Estados Unidos, mas que não consomem os nossos produtos, que são tão bons.
Não tenhas pena de mim, por favor.
Pareço um homem triste, mas a única tristeza que me assola é saber que os que amo já partiram e os que ficaram nem sabem que eu existo. Isso sim, faz-me triste. Mas tenho-te a ti, meu querido boi, que não me abandonas à minha sorte, como os fazem os políticos lá da Capital, os tais que dizem que temos de ter consciência da gravidade da situação, mas que continuam a andar em carros de milhões, a vestir roupas de milhares, a gastar mundos e fundos e a desprezar quem tanto deu ao país.
Não tenhas pena de mim, por favor.
Podem ter-nos fechado as escolas, os centros de saúde e até os hospitais cá da Vilas, mas há uma coisa que aqueles engravatados políticos que nada percebem da vida jamais nos irão tirar, a nossa esperança! Essa irá renascer, tal como Cristo, a cada novo dia, até que tudo seja diferente ou, pelo menos, como antigamente, em que podíamos ser pobres, mas jamais deixamos de ser honrados.
Não tenhas pena de mim, por favor. Tem pena é deles, pois a minha cabeça jamais será como a tua, mas a deles também jamais será como a minha."
FEDERAPES